A caminho de Nova Delhi – por Sidão Tenucci

Agora entendi! O Peregrino enviou esta última carta antes de ir para a tal ilha. Ele ainda estava na Índia, a caminho de Nova Delhi. Sim, o intervalo entre a antepenúltima carta, anos atrás, e a penúltima, foi de pelo menos um ano e meio.

Quantas cartas ele teria escrito nesse meio tempo e que, ou não chegaram ou se perderam pelas loucuras da vida? Hoje fiz algo que nunca tinha feito antes: abri a gaveta grande debaixo do armário do porão e reli uma por uma as cartas do Peregrino.

Invadi a madrugada e só parei quanto os olhos congestionados sofriam procurando as letras totalmente embaçadas. Senti-me mortificado com as coisas que eu achava que já tinha aprendido há muito tempo, mas, que, relendo, reparei que simplesmente não as tinha retido devidamente.

O lado bom é que algumas lições, dessa vez, ficaram impregnadas, espero! Ia subindo para dormir quando vi mais correspondência por debaixo da porta. Mais uma carta! Parecia mais gorda que as suas irmãs anteriores. Parece que o fluxo missivo está se restabelecendo, como sangue fresco que volta a correr em veias ressecadas. Abri:

Há 20 quilômetros de Nova Delhi a cidade já existia. Eu podia ver o número de pessoas crescer e explodir como uma plantação de cogumelos depois de uma chuva de verão. Venenosos, mágicos. Surgiam de todos os lugares: becos, casebres, buracos no chão, do teto das casas, do topo das árvores, de dentro das latas de lixo e pendurados embaixo do ventre das vacas sagradas. Essa imagem em especial me persegue, tenho que me repetir, repetindo-a. Preciso repetir. Para que a cada repetição a mensagem para mim mesmo decante (descanse no fundo), e assim vá permeando os vários níveis de consciência.

Para que consolide algo que me falta lá dentro. A cada repetição mais se aprofunda e mais consolida o conceito. E aí a ideia vai se instalando, inserindo sua energia na estrutura psíquica. Cada novo ingrediente / ideia muda a fórmula geral. A soma de minhas moléculas se altera com cada novo visitante adquirido, com cada novo instante vivido. Somos outro a cada segundo, a cada novo pensamento que penetra, a cada novo momento que se impõe.

Os rostos dos milhares de indianos surpresos apareciam esmaecidos, despontando e transbordando em bando das janelas irregulares e fora de esquadro, repentinamente por trás dos meus ombros desguarnecidos, olhando para mim deitados de costas embaixo de uma carroça quebrada, uns sobre os outros, como se tivessem nascido assim, uma pilha infinita de corpos que se abraçavam, se inclinavam e encostavam um rosto no outro, mais como necessidade de apoio do que como demonstração de carinho, mirando aquele desconhecido com olhos ávidos, serenos, medrosos, negros, grandes, todos eles grandes e profundos. A Humanidade na sua expressão mais densa. A Humanidade.

Eu quero mergulhar em algo que sempre evitei: o caos urbano, o caos humano. Quero chafurdar no meu medo e descobrir nele e dele a luz. Tocar e sentir os corpos com seus fedores, doenças e loucuras. Quero me tocar o mais profundamente possível por meio do outro. Para que existe o outro? Pretendo descobrir. O que me incomoda é meu. O que te incomoda é teu.

Arriscar não ser o que sempre mentalizei, para descobrir um ser que sou e que não sei. Ou me perder no processo. Uma onda imensa, feita de milhões de seres humanos, mais letal que o maior tsunami, mais desafiadora que o inferno. Essa Humanidade é uma ferida feita de gentes e que da qual faço parte…uma pequena célula numa multidão material, construída com carne, pele, sangue e ossos, mas alicerçada pela alma invisível.

O paradoxo humano é esse: tudo que é palpável e visível é sustentado pelo que não é. Sem o sopro divino a matéria não se sustenta, não há vida. Só podemos evoluir quando acreditarmos no óbvio: o que não se vê é o real, a única realidade, onde se aninha o conteúdo. Eu sou uma ovelha que aprendeu a viver à parte do rebanho, buscando a verdade no deserto do silencio e na amplitude da solidão; e que agora pode juntar-se a ele e só agora e assim, contribuir e compreender.

Sidão Tenucci é surfista, escritor e diretor de marketing da OP Ocean Pacific. Viajou 55 países, deparando-se com as belezas selvagens de ondas e sereias. Publicou três livros: “Almaquatica”, Ed. Terra Virgem, em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, o romance de aventuras “O Surfista Peregrino” e o livro de poemas ilustrados por 55 artistas, “Poentes de Amor”, pela Ed. Decor (todos disponíveis na Livraria Cultura).

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