Hawaii e o localismo – por Sidão Tenucci

O Hawaii é conhecido como um dos lugares mais inóspitos, senão o mais, no que diz respeito ao chamado localismo. Pode se ouvir os dentes cariados rangendo quando se passa pelos locais. Dificilmente ouve-se o velho e querido “aloha”, principalmente no inverno do North Shore.

Quando chegamos lá pela primeira vez, em 1975, ainda não odiavam os brasileiros, pelo contrário. Só para citar um exemplo quase inacreditável: eu deixei de apanhar exatamente por ser brasileiro. E pensar que, poucos anos mais tarde, o cara tomava porrada fora da água mesmo, só por ser brazuca e estar, incauto, andando na calçada perto do Kammieland Supermarket.

Num segundo momento a galera do jiu-jitsu brasileiro virou o jogo e passou a comandar, e, assim, até hoje, foram alternando-se as vísceras do poder na zona mais disputada de ondas do mundo.

 Como no Oriente Médio, ainda não se vislumbra paz duradoura à vista.

 Mas, voltando a 75…

Hawaii e o localismo  - por Sidão Tenucci

Cena 1 – Pipeline 8 pés. Fim de tarde com off-shore perfeito. Como diria o Picuruta: “cabia uma kombi” no tubo, com o “capô de fusca da Rita Cadillac e tudo”. Ainda não estávamos muito ambientados no pico. No máximo vinte surfistas disputavam o line-up. Ótimo para o padrão de crowd da época.

O cheiro de coral sempre onipresente não nos deixava esquecer de quem morava lá embaixo e de que o aluguel poderia estar pela hora da morte. Consegui, depois de ralar um pouco na turbulência do inside, contornar a zona de impacto, arrastado pela correnteza que corre paralela à praia levando de volta ao mar todo aquele volume de água trazido pelas ondas.

O oceano inteiro se movimentava lá fora. Quando entrava a série parecia que o horizonte vinha marchando contra nós. Não era nada parecido com as ondas do morro do Maluf, que eu tinha acabado de surfar algumas semanas antes no verão do Guarujá (SP).

Lá, eu dava uns off-the-lips irados, olhando para o lado cheio de chinfra, munido de uma 5’10” biquilha meio arredondada. Aqui, no inverno havaiano, segurava a onda na cautela e com curvas bem conscientes feitas com uma Barry Kanaiaupuni 8’0″ gunzeira total, borda semi-faca.

Já tava meio escolado, mas ainda não descolado. A rotina era surfar todo dia de manhã Sunset ou Pipeline, e, à tarde, para refrescar a tensão, Jock´s Reef, Laniakea, Kahuku ou Mokuleia – quando rolava o on-shore Kona Wind.

Esse procedimento diário nos dava uma razoável segurança de que sabíamos o que estávamos fazendo – embora até hoje eu suspeite que no Norte Shore de Oahu ninguém nunca soube ou sabe exatamente o que está fazendo.

Cena 2 – Veio uma série. Gerry Lopez na água. Jackie Dunn. Rory Russell. Ken Bradshaw. Os caras. Locais. Donos do pico. Só faltava seus nomes estarem gravados nas cabeças de coral, e seus bustos esculpidos por lá, se é que não estavam.

Tinha a história de que o Lopez havia tomado uma vaca e entalado a cabeça entre dois corais no fundo. Diziam que demorou para, com cuidado, desatarraxar o bigode e o crânio já famoso e subir à superfície. Lenda? Todos juravam ser verdade.

Naquela tarde, no entanto, ele reinava sóbrio e zen como sempre. Passaram umas cinco ou seis séries e eles, os rapazes do North Shore de Oahu, surfaram todas. Não sobrou nem a rebarba. A impressão que dava é que naquele dia não havia ondas intermediárias, só as da série.

Foi crescendo uma vontade dentro de mim de dropar uma daquelas. Cansei de boiar. Fui ficando com o saco cheio de ser mero espectador daquele majestoso espetáculo da natureza. Um fogo no estômago ficou queimando e me atiçando. Parecia que todo o meu corpo estava eletrificado.

O barulho das ondas quebrando e os gritos eventuais de um deles ao incentivar o tubo do outro só piorava a sensação, instigando-me ainda mais. Eles se juntavam no outside num grupo fechado e, quando vinha a série parece que havia um acordo tácito de dividirem o bolo para não sobrar nem a vela para os haoles, como eu.

Mas dessa vez veio uma série com um tempo um pouco menor de intervalo, o que fez com que vários deles ainda estivessem remando de volta. Ou era agora ou nunca.

Passou a primeira e fiquei impressionado com a naturalidade e fluidez com que Lopez foi remando para ela, e, principalmente, com a reação de todos no caminho, do mais franzino até o havaianão mais parrudo, que iam tirando o bico sem vacilar.

O cara era magrinho, mas tinha autoridade. Emitia uma certa força intangível. Dropou com leveza e sumiu down-the-line. Veio outra e um outro havaiano que eu não conhecia botou pra baixo sem pestanejar. Na terceira deu uma certa hesitação na galera e eu decidi: é minha.

Cena 3 – Remei com toda a garra, a vontade e o saco cheio da longa espera que pude reunir. Estava um pouco mais embaixo, mais para o inside, em boa posição. A Kanaiaupuni 8’0″ respondia bem à remada e eu pude sentir quando a onda me levantou e, sem chance de volta, me jogou para baixo.

Não vi mais nada. O vento off-shore injetou água salgada até na medula das minhas córneas. Quando cheguei na base, tirei a água dos olhos com as costas da mão direita e fiz a curva. Só aí ouvi um grito vindo de trás de mim.

Um cara, que depois eu vim a saber, era o Rory Russell, tinha dropado atrás do pico e vinha pegando desde lá embaixo. Pipeline não admite vacilo. Mesmo se eu o tivesse visto alguns segundos antes, não poderia puxar o bico senão iria over-the-falls com certeza. Sair por dentro da onda, daquela massa d´água, nem pensar: beijar os corais não era a minha idéia de sexo selvagem.

Fui manobrando o mais rápido que pude e surfando a onda inteira com ele atrás quase até a praia. Tirei no final e voltei remando para o outside. Ele veio me xingando o tempo todo. No caminho, só para piorar, o fotógrafo Aaron Chang, se não me engano, que estava boiando com sua máquina fotográfica no canal, e que gostava de fazer um tipo marrento, juntou-se a ele nos impropérios.

Não vou traduzir o que disseram para não ferir os ouvidos dos leitores. Sentei lá fora e os dois, mais uns três outros que eu não conhecia, me cercaram com cara de nenhum amigo. “Fuck” prá cá, “fuck” prá lá, e eu, quieto. Antes de vir a primeira porrada, um deles teve a delicadeza de perguntar: “Where are you from?”. “Brasil”, eu disse, tentando, com algum esforço, incluir o “z” na palavra para não soar tão alienígena.

Acreditem se quiser: foi a salvação. Olharam-se como se não soubessem onde era isso, resmungaram mais alguns minutos entre eles e, para minha surpresa, com um pouco de hesitação, mas aparentemente pacificados, me liberaram dizendo: “Don´t do this anymore!”. Eu falei: “Ok. Sorry”. Tipo “não falo inglês”.

Vinha de um país exótico, ainda desconhecido e tinha realizado a mágica de acalmar os ânimos borbulhantes dos locais. Daquele dia em diante, antes de remar para a onda, eu olhava duas ou três vezes para ver se não havia nenhum infeliz vindo lá do fundo dos infernos.

E assim, o resto daquela temporada surfei para cacete em tudo quando foi pico. Fizemos uma banda de música brasileira que agradava bastante as locais, arrumei uma namorada havaiana, e o resto foi só alegria. Só de lembrar cada um daqueles momentos me dá um calor gostoso no peito. A adrenalina das imagens e a felicidade adquirida e estocada durante aqueles três meses no inverno havaiano duram até hoje.

P.S.: Uma das “ofensas”, em tom de ironia, que Rory Russell dirigiu à minha pessoa enquanto remávamos de volta ao line-up foi: “Vai!, agora vai poder dizer que surfou Pipeline!”. Sim, Rory, thanks, é verdade. Muitas vezes e muitas vezes. Inclusive hoje!

Sidão Tenucci é diretor de marketing da OP Ocean Pacific, viajou 50 países para descobrir que a resposta não está nem na estrada, nem na cultura, nem nas mulheres, nem nas ondas. É autor dos livros Almaquatica (Livraria Fnac) e O Surfista Peregrino, nas livrarias Cultura, Saraiva, da Vila, La Selva e Argumento, Leblon (RJ).

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